Sunday, June 19, 2005
Caro Amigo,
venho aqui apresentar-me. Serei breve. Deixarei ao tempo a tarefa de desvendar-me. Não que seja tarefa difícil me ver despida por meio de palavras. Não, não sou do tipo difícil, não tenho muitos mistérios. Sempre me deixo à mostra, involuntariamente. Talvez tenha sido por isso que tanto hesitei em ti escrever. Tímida que sou, fico encabulada de deixar assim, a vista de todos, minha pouca habilidade com as palavras. Sempre fui afeita a elas, contudo nunca tivemos uma relação harmoniosa. Mas não me atrevo a brigar com ela, a cortar relações, ficar de mal, dar um gelo. Não, não estou louca. Sei de minha dependência. Sempre precisei de palavras pra me organizar, para pôr em ordem a casa dos sentimentos. Sempre me resolvi falando, sou mesmo de falar muito. O problema é quando a danada tá escrita. Minha falta de habilidade se torna mais evidente. Minha vergonha dobra. Não dá pra fazer caretas, dar língua, fazer biquinho, sorrir, sacudir os ombros só com palavras. Ou dá? Acho que dá, só eu que não sei fazer mesmo. Por isso que não sou muito de me lançar a essa caça às palavras que é escrever. Uma vez fui alertada que "lutar com palavras é a luta mais vã", sou boa menina sigo os conselhos. Não entro nessa briga. Até porque tenho medo e escrita não é coisa pra medrosos.
Rios sem discurso (João Cabral de Melo Neto)
Quando um rio corta, corta-se de vez
o discurso-rio de água que ele fazia;
cortado, a água se quebra em pedaços,
em poços de água, em água paralítica.
Em situação de poço, a água equivale
a uma palavra em situação dicionária:
isolada, estanque no poço dela mesma,
e porque assim estanque, estancada;
e mais: porque assim estancada, muda,
e muda porque com nenhum comunica,
porque cortou-se a sintaxe desse rio,
o fio de água por que ele discorria.
O curso de um rio, seu discurso-rio,
chega raramente a se reatar de vez:
um rio precisa de muito fio de água
para refazer o fio antigo que o fez.
Salvo a grandiloqüência de uma cheia
lhe impondo interina outra linguagem,
um rio precisa de muita água em fios
para que todos os poços se enfrasem:
se reatando, de um para outro poço,
em frases curtas, então frase e frase,
até a sentença-rio do discurso único
em que se tem voz a seca ele combate.