Friday, May 13, 2005
Caro amigo outono,
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eu não ando me reconhecendo. E é bem por isso que não ousarei exigir que me reconheças. Esta manhã me veio alheia em tudo ao que sou. Nem meus lençóis, nem o travesseiro, nem o café da manhã, nem a ligação da dona da sinuca me reconheceram. Fui eu mesmo forasteiro a mim, num corpo que doía tanto, numa garganta que falhava tanto, numa alma que pecava tanto, que desisti de me encontrar em mim. Ainda pensei em ligar para Rodolfo, falar do que me afligia. Mas desisti. Era bem capaz que nem ele me reconhecesse, visto que eu não me reconhecia. E para não terminar me magoando, desisti. Estranho, desisti hoje do dia inteiro. Passei por ele sem passado, sem futuro. Não houve angústia qualquer no dia de hoje, houve apenas a voz de Soraia, a secretária da divisão de saúde do Ministério Público, a me dizer que o que eu pedira não estava pronto. Isso porque há dias que são assim. Irreconhecíveis. Dias que se questionados, não sabem muito sobre si. Dias em que os ponteiros das horas empacam na contemplação da imagem de um homem, de seus olhos, de seus pelos, de sua nuca, de seu peito. Dias anônimos, passageiros. Dias inúteis ao calendário, à soma dos tempos, ao horóscopo! Dias parecidos comigo, neste dia. Dias que andam não se reconhecendo. Dias perdidos de si, achados em mim.
eu não ando me reconhecendo. E é bem por isso que não ousarei exigir que me reconheças. Esta manhã me veio alheia em tudo ao que sou. Nem meus lençóis, nem o travesseiro, nem o café da manhã, nem a ligação da dona da sinuca me reconheceram. Fui eu mesmo forasteiro a mim, num corpo que doía tanto, numa garganta que falhava tanto, numa alma que pecava tanto, que desisti de me encontrar em mim. Ainda pensei em ligar para Rodolfo, falar do que me afligia. Mas desisti. Era bem capaz que nem ele me reconhecesse, visto que eu não me reconhecia. E para não terminar me magoando, desisti. Estranho, desisti hoje do dia inteiro. Passei por ele sem passado, sem futuro. Não houve angústia qualquer no dia de hoje, houve apenas a voz de Soraia, a secretária da divisão de saúde do Ministério Público, a me dizer que o que eu pedira não estava pronto. Isso porque há dias que são assim. Irreconhecíveis. Dias que se questionados, não sabem muito sobre si. Dias em que os ponteiros das horas empacam na contemplação da imagem de um homem, de seus olhos, de seus pelos, de sua nuca, de seu peito. Dias anônimos, passageiros. Dias inúteis ao calendário, à soma dos tempos, ao horóscopo! Dias parecidos comigo, neste dia. Dias que andam não se reconhecendo. Dias perdidos de si, achados em mim.